Rosalía desembarca nesta sexta-feira (7 de novembro) com “Lux”, seu aguardado novo álbum que marca uma mudança radical em sua trajetória artística. Com 15 faixas impregnadas de espiritualidade, orquestração erudita e um conceito visual sacro, a cantora de 33 anos oferece ao público uma experiência que flutua entre o divino e o terrenal, transformando temas religiosos e a mística feminina em narrativa musical suntuosa.
Inspiração na Mística Feminina
Formada em musicologia pela Escola Superior de Música da Catalunha em Barcelona, Rosalía mergulhou profundamente em leituras espirituais durante os últimos três anos — período desde o lançamento de “Motomami” (2022) — para construir o conceito de “Lux”. Segundo ela mesma em conferência realizada no México, sua inspiração foi “a mística feminina”, alimentada por hagiografias e biografias de santas que lhe permitiram absorver histórias de mulheres de todo o mundo.
O álbum se estrutura como um concerto dividido em movimentos, onde as letras refletem uma luta constante entre espiritualidade e o mundo terrenal. “Me ajudou a me aproximar de como o outro entende a fé, a espiritualidade, o mundo”, comenta a artista, enfatizando que “a música neste disco está ao serviço das palavras”.
Uma Paleta Sonora Orquestrada
“Berghain”, lançado em outubro como primeiro single, ofereceu um prenúncio radical do que esperar. A faixa mistura elementos operísticos com texturas eletrônicas, apresentando Rosalía cantando em alemão, inglês e espanhol sobre violinos e uma atmosfera épica inspirada pela monja beneditina alemã Hildegard von Bingen.
A escolha foi propositalmente disruptiva: com lançamento às 17 horas, “Berghain” se tornou a canção mais ouvida na Espanha em seu primeiro dia, acumulando 500 mil reproduções apenas no Spotify, 1,6 milhões globalmente e 4 milhões de visualizações no YouTube em 24 horas. No entanto, sua inacessibilidade proposital — saltando entre gêneros em menos de três minutos com uma final explosivo — sugere que Rosalía prioriza surpreender acima de tudo.
Violinos e pianos criam uma “harmonia quase angelical” ao longo do disco, servindo como fios condutores que elevam a experiência musical para além do convencional pop. “Reliquia”, por exemplo, utiliza arranjos orquestrados para criar um som fresco e globalizado, enquanto a cantora reflete autobiograficamente sobre suas viagens pelo mundo.
Multilíngue e Multireferencial
O álbum contém composições em até 12 a 13 idiomas diferentes, do catalão ao ucraniano, passando por português europeu no fado “Memória”, árabe, latim e japonês. Essa diversidade linguística reflete o interesse de Rosalía por outras culturas e sua curiosidade sobre como diferentes tradições entendem conceitos espirituais.
As faixas tecem paralelos com histórias de santas católicas. Em “Sauvignon Blanc”, uma balada ao piano sobre desapego dos bens materiais, Rosalía invoca Santa Teresa de Ávila, que renunciou à riqueza familiar para seguir a devoção religiosa. “Mio Cristo” funciona como um hino de adoração que poderia ser ouvido dentro de uma igreja, com uma interpretação intensa capaz de emocionar mesmo os mais céticos.
Estética Visual e Conceitual
A apresentação visual de “Lux” complementa a narrativa sonora. Rosalía aparece com hábitos brancos, labios dourados e uma aureola criada por seu cabelo decolorado — referências visuais que transformam o sagrado em decorado performático. Essa abordagem continua seu histórico de usar símbolos e elementos populares para retorcê-los e devolvê-los com novos significados, conforme fez em “El Mal Querer” (2018) e “Motomami” (2022).
Um Disco Sem Medo ao Fracasso
Em entrevista ao podcast “Radio Noia”, Rosalía revelou que “Lux” é o primeiro disco que faz “sem medo ao fracasso”. Esta liberdade criativa se reflete em escolhas arriscadas: o marketing incluiu a divulgação em outubro da partitura de uma das faixas, incentivando fãs do mundo todo a tentarem adivinhar a melodia usando diferentes instrumentos.
O álbum contém três faixas adicionais disponíveis apenas em formatos físicos (CD e vinil), incluindo “Novia Robot”, descrita como a faixa mais divertida e dançante do disco. Entre violinos, violoncelos e frases multilíngues, Rosalía construiu uma experiência suntuosa que, embora às vezes pareça ter muita coisa, oferece pouco respiro.
Comparação com Ícones Pop e Crítica Musical
Alguns críticos apontam paralelos com a etapa religiosa de Madonna, particularmente “Like a Prayer” (1989), onde a rainha do pop também utilizou simbolismo católico para questionar e explorar a espiritualidade. No entanto, especialistas destacam que “Lux” será principalmente o disco orquestral de Rosalía, não tanto um disco devoto convencional.
A comparação com Björk também surge na crítica musical, sugerindo que Rosalía pode alcançar um status similar à artista islandesa — reconhecida por fazer música alternativa e vanguardista sem priorizar sucesso comercial. Agora, após anos consolidando sua carreira, Rosalía pode permitir-se trabalhar em um nível de experimentação anteriormente impossível.
Um Convite à Contemplação
Para o público acostumado com a “leveza caótica” de seus trabalhos anteriores, “Lux” pode soar sério ou até dramático demais. Faixas como a valsinha “La Perla” parecem simplórias quando comparadas com a densidade conceitual do restante do álbum. Não é música para pistas de dança ou para ouvir durante tarefas domésticas — é um convite à contemplação, à pesquisa de referências e à exploração profunda do que significa espiritualidade em tempos contemporâneos.














