LÔ BORGES, LENDA DO CLUBE DA ESQUINA, MORRE AOS 73 ANOS

Lô Borges, um dos maiores ícones da música brasileira e cofundador do lendário Clube da Esquina, faleceu no domingo (2 de novembro) aos 73 anos no Hospital da Unimed em Belo Horizonte. A morte do compositor ocorreu às 20h50, resultado de falência múltipla de órgãos após 18 dias internado com quadro de intoxicação medicamentosa que teve início em 17 de outubro. Símbolo de liberdade criativa, Lô Borges traçou uma carreira cuja influência atravessa gerações, consolidando-se como peça-chave para a renovação da cena musical brasileira desde os anos 1970.

Uma Vida Dedicada à Música

Nascido em janeiro de 1952 como Salomão Borges Filho, Lô era o sexto de 11 filhos de um jornalista e uma professora, Dona Maricota. Sua conexão com a música começou cedo, aos 10 anos, quando conheceu Milton Nascimento — apelidado Bituca — trazido ao apartamento da família por seu irmão Marilton. O menino ficava ali ouvindo o amigo tocar com os irmãos mais velhos, em especial Márcio Borges, letrista que se tornaria seu primeiro parceiro de Milton.

Alguns anos depois, Milton Nascimento presenteou o jovem Lô com seu primeiro violão. “Era o violão dele!”, revelou Lô em vídeo divulgado nas redes sociais do amigo. Tinha 13 para 14 anos quando recebeu esse instrumento que marcaria sua trajetória.

O Clube da Esquina: Nascimento de um Movimento

Junto com Milton Nascimento, Beto Guedes, Toninho Horta e seu irmão Márcio Borges, Lô fundou o Clube da Esquina, o famoso grupo de artistas mineiros que transformou a música do Brasil ao misturar rock, samba e jazz. O nome surgiu do local onde os adolescentes e amigos se reuniam no bairro Santa Tereza, precisamente no encontro das ruas Paraisópolis e Divinópolis em Belo Horizonte. Dona Maricota, mãe de Lô, foi quem apelidou assim o local onde cantavam e conversavam.

Inspiradas na psicodelia dos Beatles — Lô e Beto Guedes eram “beatlemaníacos roxos” que tinham a banda cover The Beavers — suas canções trouxeram melodias experimentais e referências nacionais que marcaram gerações. Toninho Horta foi responsável por ensinar harmonia para a dupla de adolescentes, até mesmo debaixo de um abacateiro.

O Álbum que Revolucionou a Música Brasileira

A dupla Lô Borges e Milton Nascimento é um marco na história da música brasileira, selada pelo lançamento de “Clube da Esquina” (1972), um dos mais prestigiados álbuns nacionais.[1] Entre suas canções estão clássicos imortais como “O Trem Azul”, “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo” e “Trem de Doido”. O álbum revolucionou a música popular brasileira com sua abordagem inovadora.

Antes disso, Lô e Milton já haviam trabalhado juntos em “Para Lennon e McCartney” (1970), eternizada na voz de Milton e composta por Lô, Márcio Borges e Fernando Brant. O disco “Milton” de 1970 também trazia dois clássicos de Lô: a parceria “Para Lennon e McCartney” e “Clube da Esquina”, além de “Alunar”.

Uma Composição Compulsiva

A história da criação de “Clube da Esquina” é memorável. A primeira canção surgiu na casa dos Borges, quando Lô mostrou uma harmonia a Milton. Milton pegou seu violão e começou a improvisar. “Quando a coisa me pega muito fundo, fecho os olhos e não vejo mais nada que tá acontecendo no mundo”, contou Milton ao descrever aquele momento. Dona Maricota chorava segurando uma vela acesa enquanto a luz havia acabado, e Márcio Borges rabiscava letra em um caderno. Nascia então a canção que dizia “Noite chegou outra vez/ De novo na esquina os homens estão”.

“A partir desse dia, Lô começou a compor sem parar”, comentou Milton. Lô se tornou um compositor compulsivo, gravando dezenas de discos e criando constantemente. Até durante a pandemia de COVID-19, ele aproveitou o confinamento para criar livremente, compondo 40 músicas. Como ele mesmo descreveu em entrevista a um veículo de mídia: “Como Glauber Rocha, era uma câmera na mão e outra na cabeça. Comigo é um instrumento na mão e uma ideia na cabeça, meio psicografando”.

Reconhecimento e Últimos Anos

Um momento especial em sua carreira foi em 2022, quando Lô atingiu os 70 anos. A Filarmônica de Minas Gerais realizou um concerto com repertório exclusivamente popular em sua homenagem. Pela primeira vez, a orquestra apresentava um show dedicado ao vocalista, com Lô e sua banda se apresentando ao lado dos musicistas. Os arranjos foram feitos por Neto Bellotto, principal contrabaixo da orquestra, reunindo 16 canções de Lô e seus parceiros. Os concertos foram gravados e lançados em disco e DVD em 2023.

Em 2022, ele também lançou “Chama Viva”, um álbum com letras de Patrícia Maês que refletia sua contínua criatividade.

Últimos Dias

Lô Borges foi internado em 17 de outubro com quadro de intoxicação medicamentosa. Durante o período de tratamento, passou por diversos procedimentos médicos. No sábado, 25 de outubro, foi submetido a uma traqueostomia para oferecer mais conforto e manter a ventilação mecânica. Apesar de a família ter notado uma melhora nos parâmetros clínicos nos dias seguintes, o artista teve de iniciar tratamento de hemodiálise em 27 de outubro para auxiliar a função renal.

A morte foi confirmada pelo sobrinho Rodrigo Borges. Lô Borges deixa um filho, Luca Arroyo Borges.

Um Legado Transformador

Lô Borges deixa um legado que transcende gerações. Sua influência na música brasileira é incontestável, desde sua participação fundamental no Clube da Esquina até sua contínua criatividade mesmo nos últimos anos de vida. Como cantor, compositor, instrumentista e produtor, foi responsável por renovar a cena musical brasileira e inspirar inúmeros artistas que vieram depois. Sua morte representa a perda de um dos grandes visionários da música popular brasileira, alguém que soube combinar tradição com inovação e que manteve sua chama criativa acesa até o final de sua vida.

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