LÔ BORGES: A PONTE ENTRE O CLUBE DA ESQUINA E AS NOVAS GERAÇÕES DO ROCK BRASILEIRO

Lô Borges, um dos fundadores do Clube da Esquina, faleceu na noite de domingo (2 de novembro) aos 73 anos em Belo Horizonte. O cantor e compositor, que estava internado para tratamento de intoxicação medicamentosa, sofreu falência múltipla de órgãos. Sua morte marca o fim de uma era para a música brasileira, mas deixa como legado um papel fundamental: ter sido a ponte que conectou o experimentalismo dos anos 1970 com o pop rock vibrante da década de 1990.

Uma Carreira de Renovação Constante

Lô Borges foi um dos fundadores do movimento Clube da Esquina, que transformou a música do Brasil ao misturar rock, samba e jazz a partir da década de 1970. Inspiradas na psicodelia dos Beatles, suas criações trouxeram melodias experimentais e referências nacionais que marcaram gerações. Ao lado de Milton Nascimento, Beto Guedes, Wagner Tiso, Toninho Horta e seu irmão Márcio Borges, Lô participava de encontros nas ruas Divinópolis e Paraisópolis, no bairro Santa Tereza, em Belo Horizonte, locais que deram origem ao nome do movimento.

A dupla Lô Borges e Milton Nascimento é um marco na história da música brasileira, consolidada com o álbum “Clube da Esquina” (1972), que incluiu clássicos como “O Trem Azul”, “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo” e “Trem de Doido”. Também colaborou com Milton em “Para Lennon e McCartney” (1970), canção eternizada na voz do parceiro.

A Ponte com Samuel Rosa e a Geração dos Anos 1990

A grande contribuição de Lô na segunda metade de sua carreira foi quebrar o isolamento entre gerações. Na década de 1990, havia um abismo evidente: de um lado estava o Clube da Esquina, do outro lado emergiam Skank, Pato Fu, Jota Quest e outras bandas do pop rock noventista. Eram “água e óleo”, como era comum dizer à época.

Lô foi o primeiro a quebrar esse gelo. Ao encerrar seu álbum “Meu Filme” (1996), disco que marcou seu retorno após 12 anos longe dos estúdios, ele escolheu incluir “Te Ver”, composição de Samuel Rosa que integrava o hit “Calango” (1994), segundo álbum do Skank. Era um sinal de abertura.

A parceria formal entre os dois começou quando Samuel Rosa, orgulhoso com o reconhecimento, se declarou para Lô em uma festa do selo Chaos. Depois veio um convite para uma participação especial no show do Dr. Penetration, projeto paralelo do Skank em Belo Horizonte. O ex-produtor do Skank e empresário de Lô, Marcelo Pianetti, sugeriu então um show dos dois durante o aniversário de Chico Amaral, e o projeto saiu do papel.

A Estreia Marcante no Palácio das Artes

O show entre Lô Borges e Samuel Rosa estreou em junho de 1999 no Palácio das Artes, o principal teatro de Minas Gerais. Lô ainda era tímido e quieto, enquanto Samuel, à época vocalista do Skank, era naturalmente grande no palco. Foram necessários 40 ensaios — “foi a vez que mais ensaiei na minha vida”, confessou Lô — para que a dupla encontrasse seu groove.

Para Samuel também foi desafiador, pois precisava “pegar a harmonia do Lô Borges”. A diferença de 14 anos entre eles foi paradoxalmente um ponto positivo, permitindo um diálogo musical autêntico entre gerações.

Transformação do Skank e da Música Brasileira

Após a estreia, o projeto seguiu por muitos anos, culminando em 2015 com o álbum e DVD “Samuel Rosa & Lô Borges: Ao vivo no Cine Theatro Brasil”, gravado em julho. O repertório de 20 canções mesclava a obra dos dois compositores, abrindo espaço para clássicos como “Clube da Esquina 2” e “Resposta”.

A carreira do Skank nunca mais foi a mesma após essa parceria. A banda rapidamente absorveu as harmonias sofisticadas da música do Clube da Esquina. A primeira composição conjunta de Lô e Samuel registrada pelo grupo, “A Última Guerra”, apareceu em “Maquinarama” (2000), disco que funcionou como divisor de águas na trajetória da banda, que extinguiu os metais e apostou em canções mais trabalhadas.

“Dois Rios” (Samuel/Lô/Nando Reis), primeiro single de “Cosmotron” (2003), segue sendo uma das melhores canções da história do Skank. Samuel sempre reconheceu a influência: “Ele me ensinou que toda e qualquer ideia pode ser transformada em música”. Lô, reciprocamente, devolveu o elogio: “O Samuel encarava o público de frente desde o início da carreira. Foi ele que me ensinou a cantar com voz plena.”

Um Legado de Renovação

Lô Borges superou a timidez que marcava suas apresentações iniciais, consolidando um domínio de cena impressionante. “Não tenho tremedeira, o famoso frio no estômago, nada. Entro no palco como se estivesse entrando na casa de amigos”, garantia com segurança conquistada ao longo dos anos.

Sua morte representa a perda de um dos grandes renovadores da música brasileira, alguém que não apenas criou clássicos inesquecíveis no Clube da Esquina, mas que também teve a sabedoria de reconhecer o talento das gerações posteriores e se abrir para novas parcerias. Essa ponte que construiu entre épocas diferentes permanecerá como um dos grandes legados culturais do Brasil.

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